Ansiedade e depressão

Como cuidar da saúde mental durante o tratamento da dor?

Publicado em · Por Dr. Guilherme Veloso Gomes

Resposta direta: Cuidar da saúde mental faz parte do tratamento da dor crônica. Ajudam o sono regular, a atividade física gradual, a respiração calma, manter vínculos e, quando indicado, a psicoterapia, que em estudos traz benefício pequeno, mas real, na dor e no sofrimento. Ansiedade e depressão são tratadas por psiquiatra e psicólogo, junto do médico da dor.

Quem trata uma dor crônica costuma ter a agenda cheia: consultas, exames, fisioterapia, remédios e, às vezes, procedimentos ou cirurgia. No meio de tudo isso, a saúde mental fica para depois. Só que ela pesa, e muito, no resultado do tratamento.

A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (MedlinePlus) lembra que a dor crônica afeta todos os aspectos da vida, incluindo o humor e as relações, e que depressão e estresse podem piorar a dor. Cuidar da cabeça, portanto, não é luxo: é parte do plano.

Por que a saúde mental importa no tratamento da dor?

Ansiedade e depressão são frequentes em quem tem dor crônica. Uma revisão de 2025, publicada na JAMA Network Open, encontrou sintomas importantes de depressão em cerca de 39% e de ansiedade em cerca de 40% dos adultos com dor crônica.

Esses quadros influenciam a dor de várias formas. A pessoa dorme pior, se movimenta menos, se isola e fica mais sensível a cada sinal do corpo. A dor, por sua vez, piora o humor. Para entender esse ciclo, leia qual é a relação entre dor crônica, ansiedade e depressão.

Quem cuida de quê?

O tratamento da dor crônica costuma envolver uma equipe. Cada profissional tem seu papel:

  • médico que trata a dor, como o neurocirurgião: investiga a causa, indica remédios, procedimentos ou cirurgia quando há indicação e acompanha a evolução;
  • psiquiatra: faz o diagnóstico e o tratamento de ansiedade, depressão e insônia ligada a esses quadros;
  • psicólogo: conduz a psicoterapia, que ajuda a lidar com a dor, o medo do movimento e as mudanças de vida;
  • fisioterapeuta e educador físico: orientam o retorno ao movimento com segurança.

O neurocirurgião não substitui o psiquiatra nem o psicólogo. Ele trabalha junto, troca informações quando o paciente autoriza e ajusta o plano da dor conforme a evolução do humor e do sono. Conheça a página de tratamento da dor crônica.

O que a ciência mostra sobre a psicoterapia na dor?

Uma revisão da Cochrane publicada em 2020 reuniu 75 estudos, com mais de 9 mil participantes, sobre terapias psicológicas na dor crônica, excluindo a dor de cabeça. A abordagem mais estudada foi a terapia cognitivo-comportamental.

Em comparação com o tratamento usual, ela trouxe benefício pequeno na intensidade da dor, na incapacidade e no sofrimento emocional, com efeitos que em boa parte se mantiveram meses depois. A conclusão é honesta: a psicoterapia não faz a dor desaparecer, mas ajuda muitas pessoas a viver melhor com ela.

Na psicoterapia, costumam ser trabalhados:

  1. o medo de que o movimento cause dano;
  2. pensamentos de que a dor nunca vai melhorar;
  3. o planejamento das atividades, sem exagerar nos dias bons nem parar nos dias ruins;
  4. técnicas de relaxamento e de respiração;
  5. a volta gradual a atividades que dão prazer.

Se você tem dúvidas sobre saúde mental e tratamento da dor, é possível agendar uma avaliação para entender o que se aplica ao seu caso.

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O que pode ajudar no dia a dia?

O serviço de saúde do Reino Unido (NHS) reúne medidas de autocuidado para quem convive com dor. Entre elas, algumas se relacionam diretamente com a saúde mental:

  • movimento gradual: caminhar, nadar ou fazer exercícios leves ajuda a soltar músculos e articulações, e aumentar aos poucos raramente causa dano;
  • respiração lenta: na dor forte, é comum respirar curto e rápido, o que pode trazer tontura e ansiedade; respirar devagar ajuda a manter o controle;
  • sono regular: deitar e acordar nos mesmos horários e evitar cochilos longos durante o dia;
  • distração com atividades prazerosas: hobbies que cabem dentro das limitações;
  • conversar com quem passa pelo mesmo: grupos de apoio podem diminuir a sensação de isolamento.

Sobre o sono, leia também como a dor crônica afeta o sono.

E os remédios?

Remédios fazem parte do tratamento da dor em muitos casos, e alguns, da família dos antidepressivos e dos anticonvulsivantes, também são usados em certos tipos de dor, como a dor neuropática. A escolha depende do tipo de dor, de outras doenças e de outros remédios em uso.

Por isso, alguns cuidados são importantes:

  • não tomar remédio para dormir, para ansiedade ou para dor por conta própria;
  • informar todos os médicos sobre todos os remédios que você usa;
  • não parar remédios de forma brusca sem orientação;
  • evitar álcool junto com remédios para dor ou para ansiedade.

Veja quais remédios são usados no tratamento da dor crônica.

E quando há cirurgia no caminho?

Quando a dor tem uma causa que pode ser corrigida com cirurgia, como uma compressão de nervo, a preparação emocional também conta. Entender a indicação, os riscos e a recuperação costuma reduzir a ansiedade. Leia como lidar com a ansiedade antes de uma cirurgia.

Depois da cirurgia, é comum ter oscilações de humor. Se a dor continua, vale investigar a causa, como explicado em por que a dor continua depois da cirurgia de coluna.

Quando procurar atendimento

Procure avaliação em saúde mental se, por duas semanas ou mais, houver tristeza na maior parte dos dias, perda de interesse pelas coisas, preocupação difícil de controlar, crises de pânico ou alterações fortes no sono e no apetite. Procure também o médico que cuida da dor se ela piorar, mudar de padrão ou atrapalhar cada vez mais o dia a dia.

Busque ajuda imediata se houver:

  • pensamentos de morte ou de se machucar: ligue 188 para o CVV, que atende de graça, 24 horas por dia, ou use o chat em cvv.org.br;
  • risco imediato de vida: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro;
  • dor nas costas com perda de força nas pernas, perda de controle da urina ou das fezes ou dormência na região genital;
  • dor com febre alta, ou dor súbita e muito forte diferente do habitual.

Em Ribeirão Preto, o acompanhamento da dor crônica pode reunir neurocirurgião, psiquiatra, psicólogo e fisioterapeuta, cada um na sua área.

Se você tem dor crônica e percebe que ela está afetando o humor, uma avaliação com neurocirurgião ajuda a entender a causa e as opções de tratamento, e o acompanhamento com psiquiatra e psicólogo cuida da saúde mental.

Perguntas frequentes

Fazer terapia quer dizer que minha dor é emocional?

Não. A psicoterapia ajuda a lidar com o impacto da dor na vida, com o medo de se movimentar e com o sofrimento emocional. Ela entra como parte do tratamento, junto da investigação e do cuidado da causa física, e não no lugar deles.

Qual tipo de psicoterapia é mais estudado na dor crônica?

A terapia cognitivo-comportamental é a mais estudada. Uma revisão da Cochrane de 2020 encontrou benefício pequeno na dor, na incapacidade e no sofrimento emocional em comparação com o tratamento usual. Outras abordagens, como a terapia de aceitação e compromisso, também são pesquisadas. A escolha é feita com o psicólogo.

Exercício ajuda mesmo com dor?

Na maioria das dores crônicas, sim, quando começa devagar e aumenta aos poucos. O serviço de saúde do Reino Unido explica que a atividade gradual raramente causa dano e ajuda a soltar músculos e articulações. Quem tem sinais de alerta ou acabou de operar deve seguir a orientação do médico.

Posso tomar remédio para dormir por conta própria?

Não. Remédios para dormir, para ansiedade e para dor podem interagir entre si e causar sonolência, quedas e dependência. Qualquer remédio deve ser indicado e acompanhado por um médico.

Fontes consultadas

  • Williams ACC e colaboradores. Psychological therapies for the management of chronic pain (excluding headache) in adults. Cochrane, 2020 (abrir fonte)
  • Aaron RV e colaboradores. Prevalence of Depression and Anxiety Among Adults With Chronic Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Network Open, 2025 (abrir fonte)
  • NHS. 10 ways to reduce pain (abrir fonte)
  • MedlinePlus. Chronic Pain (abrir fonte)

Conteúdo revisado por Dr. Guilherme Veloso Gomes (CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200) em 07/10/2026. Texto educativo, que não substitui a consulta médica, não serve para autodiagnóstico e não representa promessa de resultado. Cada caso depende de avaliação clínica, exame físico e, quando indicado, exames complementares. Em caso de sintomas súbitos ou intensos, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

Dr. Guilherme Veloso Gomes
Autoria e revisão médica Dr. Guilherme Veloso Gomes

Médico neurocirurgião. CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200. Neurocirurgia: RQE-SP 151861, Neurocirurgia: RQE-MG 71371. Neurocirurgião em Ribeirão Preto, com residência em Neurocirurgia nos hospitais Felício Rocho e João XXIII, em Belo Horizonte (MG). Ver perfil completo

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