Tratamento da dor

O que é dor crônica e por que ela não passa?

Publicado em · Por Dr. Guilherme Veloso Gomes

Resposta direta: Dor crônica é a dor que persiste ou volta por mais de três meses, segundo a classificação da IASP adotada na CID-11. Ela pode continuar porque o sistema nervoso fica mais sensível, porque a causa ainda está presente ou por uma combinação de fatores físicos, emocionais e de sono. Tem tratamento, em geral combinando várias medidas.

Quase todo mundo já sentiu uma dor que sumiu depois de alguns dias. Torção, corte, dor muscular depois de esforço: a lesão cicatriza e a dor vai embora. Em algumas pessoas, porém, a dor fica. Passam semanas, passam meses, e ela continua ali, atrapalhando o trabalho, o sono e o humor.

Essa dor que permanece tem nome: dor crônica. Entender o que ela é ajuda a tirar a culpa do paciente, a evitar exames e tratamentos sem necessidade e a buscar um cuidado que faça sentido.

O que é dor crônica, segundo as definições oficiais?

A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) define dor como uma experiência sensitiva e emocional desagradável, associada ou semelhante àquela associada a uma lesão real ou potencial dos tecidos. A definição foi revisada em 2020 e deixa claro um ponto importante: a dor é sempre pessoal, e o relato de quem sente deve ser levado a sério.

Na classificação que a IASP preparou para a CID-11, da Organização Mundial da Saúde, a dor crônica é a que persiste ou volta por mais de três meses. A CID-11 separa dois grandes grupos:

  • dor crônica primária: a dor é o próprio problema principal, sem uma doença que a explique por inteiro, como em alguns casos de dor lombar crônica e na fibromialgia;
  • dor crônica secundária: a dor é consequência de outra condição, como lesão de nervo, artrose, câncer, cirurgia ou trauma.

As duas podem existir ao mesmo tempo na mesma pessoa. Essa separação ajuda o médico a escolher o tratamento, porque o que funciona em um grupo nem sempre funciona no outro.

Por que a dor não passa?

Não existe uma resposta única. Em geral, mais de um fator está presente, e cada um pede um cuidado diferente.

A causa ainda está lá. Uma raiz nervosa comprimida por hérnia de disco, uma articulação da coluna inflamada ou um nervo lesado podem manter a dor enquanto o problema existir. Nesses casos, tratar a origem faz parte do plano. Veja mais sobre dor ciática e hérnia de disco.

O sistema nervoso ficou mais sensível. Com a dor prolongada, os nervos e a medula espinhal podem passar a amplificar os sinais. Estímulos que antes eram fracos começam a doer, e a dor se espalha para áreas maiores. Esse processo é chamado de sensibilização e ajuda a explicar por que a dor pode continuar mesmo quando a lesão inicial já cicatrizou.

O nervo foi lesado. Quando a dor nasce de uma lesão ou doença do próprio sistema nervoso, ela tem características diferentes, como queimação e choque. É a dor neuropática, que costuma pedir medicamentos de classes específicas.

Sono, humor e estresse entram no ciclo. Dormir mal aumenta a sensibilidade à dor, e a dor atrapalha o sono. Ansiedade e depressão são mais frequentes em quem tem dor crônica e também podem intensificar a dor. Saiba mais em como a dor crônica afeta o sono e na relação entre dor crônica, ansiedade e depressão.

Medo de se mexer. Quem sente dor tende a evitar movimentos. Com o tempo, a musculatura perde força, as articulações enrijecem e atividades simples passam a doer mais.

Como o médico investiga a dor crônica?

A investigação começa pela conversa. O médico pergunta quando a dor começou, onde ela está, se desce para braço ou perna, como é a sensação, o que piora e o que alivia. Também quer saber dos tratamentos já feitos e de como a dor afeta o sono, o trabalho, a família e o humor.

Em seguida vem o exame físico e neurológico. Força, reflexos, sensibilidade e alguns testes de movimento ajudam a localizar a origem da dor.

Os exames complementares, como ressonância, tomografia ou eletroneuromiografia, são pedidos quando o resultado pode mudar a conduta. Um cuidado importante: achados como desgaste de disco e pequenas protrusões são comuns em pessoas sem dor. Por isso o exame é sempre lido junto com a história e o exame físico. Entenda melhor quando é preciso fazer ressonância da coluna.

Se você tem dúvidas sobre dor crônica, é possível agendar uma avaliação para entender o que se aplica ao seu caso.

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Quais tratamentos costumam ser usados?

O tratamento da dor crônica raramente depende de uma medida só. As diretrizes, como a do NICE, do Reino Unido, recomendam um plano construído junto com o paciente, com metas realistas. Entre as opções:

  1. Atividade física orientada. Exercícios supervisionados e progressivos estão entre as medidas com mais respaldo para dor crônica.
  2. Fisioterapia. Ajuda a recuperar movimento, força e confiança para as atividades do dia a dia.
  3. Abordagem psicológica. Terapias como a cognitivo-comportamental e a de aceitação e compromisso podem reduzir o impacto da dor na vida.
  4. Medicamentos. A escolha depende do tipo de dor. Em algumas situações são usadas certas classes de antidepressivos e de anticonvulsivantes, que agem nos circuitos da dor. Sempre com prescrição e acompanhamento médico. Veja quais remédios são usados no tratamento da dor crônica.
  5. Procedimentos. Em casos selecionados, podem ser avaliados bloqueios, radiofrequência ou neuromodulação.
  6. Cirurgia. Considerada quando existe uma causa que pode ser corrigida, como compressão de nervo com perda de força.

A indicação de cada uma depende da avaliação. O objetivo costuma ser reduzir a dor e melhorar a função e a qualidade de vida, e não apenas zerar uma nota de dor.

O que você pode fazer no dia a dia?

Algumas atitudes ajudam enquanto o tratamento é organizado:

  • manter-se ativo dentro do possível, sem longos períodos de repouso;
  • anotar quando a dor piora e o que ajuda, para levar à consulta;
  • cuidar do horário de sono;
  • evitar tomar analgésicos por conta própria de forma contínua;
  • conversar com a família sobre como a dor afeta sua rotina.

Quando procurar atendimento?

Vale marcar uma consulta quando a dor dura mais de algumas semanas, volta com frequência, desce para braço ou perna, atrapalha o sono ou o trabalho, ou quando você está tomando remédio para dor quase todos os dias.

Procure pronto-socorro ou ligue 192 se houver:

  • perda de força súbita em braço ou perna;
  • dormência na região entre as pernas ou perda de controle da urina ou das fezes;
  • febre com dor intensa na coluna;
  • dor depois de queda ou acidente;
  • dor que piora à noite junto com perda de peso sem explicação.

Em Ribeirão Preto, o Dr. Guilherme Veloso Gomes, médico neurocirurgião, atende na Clínica SENEC e avalia dores de origem na coluna e nos nervos, com abordagem multidisciplinar. Conheça a página de tratamento da dor.

Se você tem esses sintomas, uma avaliação com neurocirurgião ajuda a entender a causa e as opções de tratamento.

Perguntas frequentes

Dor crônica é coisa da cabeça?

Não. A dor crônica é real e envolve mudanças no funcionamento do sistema nervoso. Fatores emocionais e o sono influenciam a intensidade da dor, mas isso não quer dizer que ela seja imaginária.

Exame normal quer dizer que não tenho nada?

Não necessariamente. Em parte das dores crônicas, os exames de imagem não mostram uma causa clara, e a dor continua real. Por outro lado, alterações de desgaste aparecem também em pessoas sem dor, por isso o exame sempre é interpretado junto com a consulta.

Repouso ajuda na dor crônica?

Repouso prolongado costuma piorar a dor crônica, porque leva à perda de força e de condicionamento. Atividade física orientada e progressiva é uma das medidas com mais respaldo nas diretrizes. O tipo e a intensidade dependem de cada caso.

Quanto tempo dura o tratamento da dor crônica?

Varia bastante. Algumas pessoas melhoram em semanas, outras precisam de acompanhamento por mais tempo. O plano é revisto nos retornos conforme a resposta.

Fontes consultadas

  • Treede RD et al. A classification of chronic pain for ICD-11. Pain, 2015 (PMC) (abrir fonte)
  • Raja SN et al. The revised IASP definition of pain. Pain, 2020 (PMC) (abrir fonte)
  • NICE NG193. Chronic pain (primary and secondary) in over 16s (abrir fonte)
  • MedlinePlus. Chronic Pain (abrir fonte)

Conteúdo revisado por Dr. Guilherme Veloso Gomes (CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200) em 07/10/2026. Texto educativo, que não substitui a consulta médica, não serve para autodiagnóstico e não representa promessa de resultado. Cada caso depende de avaliação clínica, exame físico e, quando indicado, exames complementares. Em caso de sintomas súbitos ou intensos, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

Dr. Guilherme Veloso Gomes
Autoria e revisão médica Dr. Guilherme Veloso Gomes

Médico neurocirurgião. CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200. Neurocirurgia: RQE-SP 151861, Neurocirurgia: RQE-MG 71371. Neurocirurgião em Ribeirão Preto, com residência em Neurocirurgia nos hospitais Felício Rocho e João XXIII, em Belo Horizonte (MG). Ver perfil completo

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