Doenças neurológicas

Quando a epilepsia pode ser tratada com cirurgia?

Publicado em · Por Dr. Guilherme Veloso Gomes

Resposta direta: A cirurgia de epilepsia costuma ser considerada quando as crises continuam apesar do uso correto de pelo menos dois remédios adequados, ou quando há uma lesão no cérebro relacionada às crises. A indicação depende de uma investigação detalhada, feita com a neurologia, para localizar a origem das crises e avaliar riscos.

A epilepsia é uma condição em que a pessoa tem crises epilépticas repetidas, causadas por descargas elétricas anormais no cérebro. O tratamento principal são os remédios anticrise, prescritos e ajustados pelo neurologista. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 70% das pessoas com epilepsia podem ficar sem crises com o uso adequado desses remédios.

Para uma parte dos pacientes, porém, as crises continuam mesmo com o tratamento correto. É nesse grupo que a cirurgia e outros procedimentos podem entrar em discussão. Este texto explica, de forma educativa, quando isso acontece e como é o caminho até a decisão.

O que é epilepsia resistente aos remédios?

Fala-se em epilepsia resistente, ou refratária, quando as crises não ficam controladas apesar do uso de pelo menos dois remédios anticrise bem escolhidos para o tipo de epilepsia, nas doses adequadas e tolerados pelo paciente. Essa definição é da Liga Internacional Contra a Epilepsia, e o NINDS também usa o critério de dois remédios como o ponto em que a cirurgia costuma ser considerada.

Antes de concluir que a epilepsia é resistente, o neurologista confere alguns pontos:

  • Se o diagnóstico está correto, porque alguns episódios parecidos com crises têm outra causa, como desmaios ou crises não epilépticas.
  • Se o remédio escolhido é adequado para o tipo de crise.
  • Se os remédios estão sendo tomados como prescrito.
  • Se existem fatores que facilitam as crises, como privação de sono e uso de álcool.

Quando esses pontos foram revistos e as crises persistem, o encaminhamento para uma avaliação de cirurgia de epilepsia passa a fazer sentido. O NINDS destaca que, quando o paciente é um bom candidato, a avaliação não deve ser adiada.

Quem pode ser candidato à cirurgia?

Em geral, os candidatos mais adequados são pessoas com crises focais, ou seja, que começam em uma área específica do cérebro. Isso é mais comum quando há uma lesão visível na ressonância, como esclerose do hipocampo, malformações do desenvolvimento do córtex, tumores de crescimento lento ou cavernomas.

Também é importante que a área de origem das crises possa ser retirada ou tratada sem prejuízo grave de funções como fala, movimento, visão e memória. O NINDS explica que a equipe analisa o tipo de crise, a região envolvida e a importância dessa região para o dia a dia antes de indicar o procedimento.

Pacientes com crises que começam em vários pontos ao mesmo tempo, ou em áreas essenciais, podem não ser candidatos à retirada de tecido. Para eles, existem outras opções.

Como é a investigação antes da cirurgia?

A avaliação pré-cirúrgica é feita por uma equipe com neurologistas, neurocirurgiões, neuropsicólogos e outros profissionais, em centros com experiência em epilepsia. As etapas mais comuns são:

  1. Videoeletroencefalograma, em que o paciente fica internado sendo filmado e monitorado até ter crises, para registrar onde elas começam.
  2. Ressonância magnética com protocolo próprio para epilepsia.
  3. Avaliação neuropsicológica, que mede memória, linguagem e outras funções.
  4. Exames complementares em casos selecionados, como PET, SPECT ou ressonância funcional.
  5. Em alguns pacientes, monitorização com eletrodos colocados dentro do crânio, como a estereoeletroencefalografia (SEEG), quando os exames não invasivos não bastam para localizar a origem das crises.

Os resultados são discutidos em reunião da equipe. Só depois disso se define se há indicação e qual procedimento faz mais sentido.

Se você tem dúvidas sobre cirurgia de epilepsia, é possível agendar uma avaliação para entender o que se aplica ao seu caso.

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Quais são os tipos de procedimento?

Os procedimentos usados na epilepsia se dividem em dois grupos: os que buscam retirar ou desligar a área de origem das crises e os que modulam a atividade elétrica do cérebro.

Entre os que atuam na área de origem estão:

  • Ressecção do foco, como a lobectomia temporal ou a retirada de uma lesão (lesionectomia). Segundo o NINDS, é o tipo mais comum de cirurgia de epilepsia e serve para crises que começam em uma única área.
  • Ablação a laser guiada por ressonância, menos invasiva, que destrói uma pequena área por calor.
  • Desconexões, como a calosotomia, usada em casos específicos para reduzir crises com queda.

Entre os de neuromodulação estão:

  • Estimulação do nervo vago, com um aparelho implantado no peito.
  • Estimulação cerebral profunda e neuroestimulação responsiva, com eletrodos no cérebro, disponíveis em centros específicos.

Os procedimentos de neuromodulação costumam reduzir a frequência das crises, mas raramente as eliminam por completo. A estimulação cerebral profunda também é usada em doenças do movimento, com alvos diferentes.

Quais são os benefícios e os riscos?

O NINDS informa que, quando os remédios falham, a cirurgia tem chance muito maior de deixar a pessoa sem crises do que a troca por outro remédio. Ainda assim, o resultado varia de paciente para paciente e não há como prometer o fim das crises.

Toda cirurgia no cérebro tem riscos, como infecção, sangramento e alterações de memória, linguagem, visão ou humor, conforme a área operada. A avaliação neuropsicológica e os exames funcionais existem justamente para estimar esses riscos antes da decisão. Leia mais sobre os riscos de uma cirurgia no cérebro.

Mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida, os remédios costumam ser mantidos por um período, e o acompanhamento com o neurologista continua.

Quando procurar atendimento

Converse com seu neurologista sobre a possibilidade de avaliação para cirurgia se:

  • As crises continuam depois de dois ou mais remédios tomados corretamente.
  • As crises causam quedas, ferimentos ou impedem trabalhar, estudar ou dirigir.
  • A ressonância mostrou uma lesão que pode estar ligada às crises.
  • Os efeitos colaterais dos remédios atrapalham muito a vida.

Ligue 192 ou procure o pronto-socorro se uma crise durar mais de 5 minutos, se as crises se repetirem sem que a pessoa recupere a consciência entre elas, se houver ferimento na cabeça, dificuldade para respirar ou se for a primeira crise da vida. Durante uma crise, deite a pessoa de lado, afaste objetos e não coloque nada na boca dela.

Quem vive em Ribeirão Preto e região pode fazer a avaliação neurocirúrgica inicial no consultório, sempre em conjunto com o neurologista que já acompanha o caso. Veja a página de doenças neurológicas e entenda como é a primeira consulta com o neurocirurgião.

Se você tem esses sintomas, uma avaliação com neurocirurgião ajuda a entender a causa e as opções de tratamento.

Perguntas frequentes

Depois da cirurgia posso parar os remédios?

Não por conta própria. Mesmo quando as crises param, os remédios costumam ser mantidos por um tempo. A redução, quando possível, é decidida e acompanhada pelo neurologista.

Criança pode fazer cirurgia de epilepsia?

Sim, em casos selecionados. Em crianças com epilepsia resistente, a avaliação precoce é importante porque as crises frequentes podem afetar o desenvolvimento. A decisão é feita por equipe com neurologia infantil.

O que é o estimulador do nervo vago?

É um dispositivo implantado sob a pele do peito, ligado por um fio ao nervo vago no pescoço. Ele envia estímulos elétricos regulares que podem reduzir a frequência das crises em parte dos pacientes, sem remover nenhuma área do cérebro.

Toda epilepsia resistente pode ser operada?

Não. Em alguns pacientes as crises começam em várias áreas ou em regiões responsáveis por funções importantes, como fala e movimento. Nesses casos, a retirada de tecido pode não ser indicada, e outras opções, como dispositivos de estimulação ou dieta cetogênica, podem ser discutidas.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado por Dr. Guilherme Veloso Gomes (CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200) em 07/10/2026. Texto educativo, que não substitui a consulta médica, não serve para autodiagnóstico e não representa promessa de resultado. Cada caso depende de avaliação clínica, exame físico e, quando indicado, exames complementares. Em caso de sintomas súbitos ou intensos, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

Dr. Guilherme Veloso Gomes
Autoria e revisão médica Dr. Guilherme Veloso Gomes

Médico neurocirurgião. CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200. Neurocirurgia: RQE-SP 151861, Neurocirurgia: RQE-MG 71371. Neurocirurgião em Ribeirão Preto, com residência em Neurocirurgia nos hospitais Felício Rocho e João XXIII, em Belo Horizonte (MG). Ver perfil completo

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