Resposta direta: Na cirurgia endoscópica endonasal, o cirurgião usa uma câmera fina e instrumentos que entram pelas narinas até a hipófise, sem corte no rosto. O tumor é retirado pelo seio esfenoidal e a base do crânio é reconstruída no final. A recuperação costuma incluir nariz entupido por semanas e controle de hormônios e sódio.
Muita gente se surpreende ao saber que um tumor que fica dentro do crânio pode ser operado pelo nariz. A hipófise fica logo atrás da cavidade nasal, separada dela por um osso fino. Por isso, o caminho pelo nariz costuma ser o mais curto até a glândula e é hoje o acesso mais usado nos tumores dessa região.
O que é a cirurgia endoscópica endonasal?
É uma cirurgia feita por dentro do nariz, com o auxílio de um endoscópio, que é um tubo fino com câmera e luz na ponta. A imagem aparece ampliada num monitor, e o cirurgião trabalha com instrumentos longos que também entram pelas narinas.
O nome técnico completo costuma ser cirurgia endoscópica endonasal transesfenoidal, porque o acesso atravessa o seio esfenoidal, uma cavidade de ar que fica no fundo do nariz, logo à frente da hipófise.
Na maioria dos casos, não há corte na pele do rosto nem é preciso abrir o osso do crânio pela parte de cima da cabeça.
Para quais casos ela é indicada?
O uso mais comum é na retirada do adenoma de hipófise, principalmente:
- macroadenomas não funcionantes que comprimem os nervos da visão;
- tumores que produzem hormônio do crescimento, causando acromegalia;
- tumores que produzem ACTH, causando a doença de Cushing;
- prolactinomas em situações específicas, como falta de resposta ou intolerância ao remédio.
A mesma via também é usada em outras lesões da região central da base do crânio, como alguns casos de craniofaringioma, de meningioma de base de crânio, de cistos e no fechamento da fístula liquórica. Lesões que se estendem muito para os lados ou para cima podem exigir craniotomia ou acessos combinados.
Como é feito o preparo?
Antes da cirurgia, a equipe costuma pedir:
- Ressonância magnética da sela turca e, muitas vezes, tomografia dos seios da face para planejar o caminho.
- Dosagens de hormônios, para saber se algum precisa ser reposto antes ou durante a internação.
- Exame de campo visual, quando o tumor está perto dos nervos ópticos.
- Avaliação clínica e exames de rotina para a anestesia.
O preparo também inclui orientação sobre remédios em uso, especialmente os que afinam o sangue, que só devem ser ajustados com a orientação do médico. Saiba como lidar com a ansiedade antes da cirurgia, que é comum e merece atenção.
Se você tem dúvidas sobre cirurgia endoscópica endonasal, é possível agendar uma avaliação para entender o que se aplica ao seu caso.
Agendar pelo WhatsAppComo é a cirurgia, passo a passo?
A cirurgia é feita com anestesia geral. De forma simplificada, as etapas costumam ser:
- O endoscópio é introduzido pela narina e o cirurgião localiza a entrada do seio esfenoidal.
- Uma pequena abertura no fundo do nariz e no seio esfenoidal dá acesso à parede óssea da sela turca.
- O osso da sela é aberto e a membrana que cobre a hipófise é cortada com cuidado.
- O tumor é retirado em partes, preservando a glândula normal, os nervos da visão e as artérias carótidas, que ficam dos lados.
- A base do crânio é reconstruída, quando necessário, com tecidos do próprio paciente, como um retalho da mucosa do septo nasal, gordura ou fáscia, e às vezes com materiais próprios para isso.
Em muitos serviços, a cirurgia é feita em conjunto por neurocirurgião e otorrinolaringologista. Recursos como neuronavegação podem ser usados para orientar o caminho, conforme o caso e o hospital.
Quais são os riscos?
Como toda cirurgia na base do crânio, ela tem riscos, que variam com o tamanho e o tipo do tumor. Os mais discutidos na literatura são:
- vazamento de líquor pelo nariz, a fístula liquórica, que pode exigir nova intervenção;
- alteração do hormônio que controla a água do corpo, com muita urina e sede, em geral passageira;
- queda do sódio no sangue alguns dias depois da cirurgia;
- deficiência de outros hormônios da hipófise;
- sangramento nasal, sinusite, crostas e alteração do olfato;
- meningite, que é uma infecção pouco frequente;
- piora da visão e lesão de artéria, que são raras, mas graves.
Uma revisão de 2022 dedicada a essas complicações reforça que conhecê-las e planejar a cirurgia para preveni-las é parte central do cuidado. O consenso internacional de 2019 aponta ainda que as técnicas de reconstrução da base do crânio ajudaram a reduzir os vazamentos de líquor. Leia mais sobre os riscos de uma cirurgia no cérebro.
Como é a recuperação?
A internação costuma durar poucos dias. Nesse período, a equipe acompanha o volume de urina, o sódio no sangue, os hormônios e a visão.
Em casa, é comum:
- nariz entupido e secreção com sangue por alguns dias a semanas;
- crostas no nariz, que são retiradas nas consultas de retorno, muitas vezes pelo otorrinolaringologista;
- cansaço nas primeiras semanas.
As orientações costumam incluir não assoar o nariz, espirrar de boca aberta, evitar esforço físico e levantar peso por um período e fazer as lavagens nasais indicadas. A volta ao trabalho depende da atividade de cada pessoa e da evolução.
O acompanhamento continua com o endocrinologista, que avalia a necessidade de reposição hormonal, e com ressonâncias de controle ao longo dos anos.
Quando procurar atendimento
Depois da cirurgia, procure a equipe ou um pronto-socorro, ou ligue 192, se houver:
- saída de líquido claro e aguado pelo nariz, que piora ao abaixar a cabeça;
- febre, dor de cabeça forte e rigidez no pescoço;
- sangramento nasal intenso que não para;
- piora da visão;
- sede intensa com urina em grande volume, náusea, confusão ou sonolência.
Antes da cirurgia, a consulta serve para entender se esse acesso é adequado ao seu caso e quais são as alternativas. Em Ribeirão Preto, o planejamento é feito com a participação de outras especialidades quando necessário. Veja mais sobre a cirurgia de base de crânio e da hipófise.
Se você tem esses sintomas, uma avaliação com neurocirurgião ajuda a entender a causa e as opções de tratamento.
Perguntas frequentes
A cirurgia endoscópica é diferente da cirurgia com microscópio?
As duas chegam à hipófise pelo nariz. A diferença é o instrumento de visão: o endoscópio leva a câmera para dentro do nariz e permite enxergar ângulos mais amplos, enquanto o microscópio fica fora. Estudos comparativos mostram resultados próximos, com algumas vantagens relatadas para o endoscópio, e a escolha depende do caso e da experiência da equipe.
Vou perder o olfato depois da cirurgia?
Alterações no olfato podem acontecer, em geral de forma passageira, por causa do inchaço e das crostas no nariz. Em alguns casos a mudança é mais duradoura. Esse risco faz parte da conversa antes da cirurgia.
Quanto tempo fico internado?
Costuma ser uma internação de poucos dias, mas o tempo varia com o tipo de tumor, com a necessidade de controlar hormônios e sódio e com a evolução de cada pessoa. A equipe define a alta quando os exames e os sintomas estão estáveis.
Posso assoar o nariz depois da cirurgia?
Em geral, a orientação é não assoar o nariz e evitar esforço nas primeiras semanas, para proteger a reconstrução da base do crânio. Lavagens nasais e outros cuidados são orientados pela equipe, que diz quando é seguro voltar à rotina.
Fontes consultadas
- ICAR: endoscopic skull-base surgery (International Forum of Allergy and Rhinology, 2019) (abrir fonte)
- Endoscopic Endonasal Skull Base Surgery Complication Avoidance: A Contemporary Review (Brain Sciences, 2022) (abrir fonte)
- Endoscopic Versus Microscopic Transsphenoidal Surgery in the Treatment of Pituitary Adenoma: A Systematic Review and Meta-Analysis (World Neurosurgery, 2017) (abrir fonte)
- Pituitary tumor, enciclopédia médica (MedlinePlus) (abrir fonte)
Conteúdo revisado por Dr. Guilherme Veloso Gomes (CRM-SP 287794 · CRM-MG 82200) em 07/10/2026. Texto educativo, que não substitui a consulta médica, não serve para autodiagnóstico e não representa promessa de resultado. Cada caso depende de avaliação clínica, exame físico e, quando indicado, exames complementares. Em caso de sintomas súbitos ou intensos, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).